MTV Brasil: A primeira emissora musical da TV aberta e seu impacto na cultura jovem brasileira
- Shoyu
- 3 de out.
- 5 min de leitura
Mais do que um canal de videoclipes, a MTV Brasil criou a cultura dos VJs e provou que a televisão pode, sim, moldar moda, opinião e consciência social
Em 20 de outubro de 1990, foi ao ar a MTV Brasil, a primeira emissora da televisão aberta brasileira voltada exclusivamente ao conteúdo musical. A iniciativa, fruto de uma parceria entre o Grupo Abril e a norte-americana Viacom, representou uma ruptura significativa com os formatos tradicionais da televisão nacional. Muito mais do que um canal de videoclipes, a MTV Brasil foi um marco cultural e estético, com papel central na formação da identidade jovem nas décadas de 1990 e 2000.
Durante seus 23 anos em sinal aberto, a MTV funcionou como uma espécie de curadoria audiovisual para toda uma geração. Uniu música, comportamento e crítica social com uma linguagem informal, criativa e altamente segmentada, abrindo espaço para vozes antes pouco representadas na mídia tradicional.
Um novo modelo de televisão
O lançamento da MTV Brasil ocorreu em um momento de grandes transformações no país: a redemocratização recente, a abertura econômica e a explosão das indústrias culturais urbanas criavam um terreno fértil para novas linguagens. A emissora chegou como a primeira TV segmentada do Brasil em canal aberto, com foco direto no público jovem e na difusão da música pop, rock, rap, eletrônica e suas variantes.
A estreia ocorreu com a exibição do clipe Garota de Ipanema, em versão remixada por Marina Lima, e apresentação da VJ Astrid Fontenelle. Nos primeiros meses, a grade era composta majoritariamente por videoclipes, cerca de 70% internacionais e 30% nacionais, além de programas conduzidos por VJs, jovens comunicadores que rapidamente se tornaram referências culturais.
O sinal inicial era restrito a São Paulo (UHF), mas o canal expandiu gradualmente sua distribuição, alcançando outras capitais brasileiras. Essa expansão permitiu que a MTV se tornasse um importante veículo de formação musical e comportamental para jovens em diversas regiões do país.
Inovação estética e linguagem própria
Um dos principais legados da MTV foi a ruptura com o padrão televisivo vigente. A emissora adotou uma linguagem visual inspirada no videoclipe, com cortes rápidos, edição dinâmica, inserções gráficas e uma estética marcada pela fragmentação. Essa abordagem contrastava fortemente com a narrativa linear e previsível da televisão tradicional.
Além disso, o canal valorizava o improviso, o humor autorreferente, a metalinguagem e a presença constante dos bastidores na frente das câmeras, elementos que hoje estão naturalizados na produção audiovisual online, mas que à época eram disruptivos.
Os VJs, abreviatura de vídeo jockeying, uma prática artística de performance visual ao vivo que envolve a criação ou manipulação de imagens em tempo real através de mediação tecnológica e para um público em sincronização com música, desempenharam papel fundamental nessa construção. Nomes como Cazé Peçanha, Thunderbird, Marina Person, Penélope Nova, Luisa Micheletti, Daniella Cicarelli, Tatá Werneck e Marcelo Adnet não apenas apresentavam programas, mas também participavam ativamente da criação de conteúdo e da construção da identidade do canal.
A MTV Brasil consolidou-se como um espaço de discussão de temas contemporâneos e sensíveis, abordando de forma direta assuntos como sexualidade, prevenção ao HIV, feminismo, direitos LGBTQIA+, consumo consciente, política estudantil e liberdade de expressão. Esses temas eram tratados em programas como MTV News, Ponto Pê e Gordo a Go-Go, com uma abordagem acessível e voltada para o público jovem.
Além do jornalismo alternativo e comportamental, a MTV teve papel decisivo na divulgação da música nacional independente e alternativa. Bandas como Raimundos, Planet Hemp, Charlie Brown Jr., Los Hermanos, Pitty, CPM22, Fresno e artistas como Emicida e DJ Patife ganharam projeção nacional a partir da visibilidade obtida na MTV. A emissora também foi um dos primeiros veículos a tratar DJs e produtores de música eletrônica como artistas centrais, e não apenas coadjuvantes da cena cultural.
Essa interseção entre música, comportamento e crítica social posicionou a MTV como um espaço cultural relevante, especialmente em um país com escassa representatividade jovem na mídia tradicional.
Legado e influência na televisão e na internet
A MTV encerrou sua operação em canal aberto em 30 de setembro de 2013, quando a concessão foi devolvida à Viacom. Desde então, a marca permanece no ar como canal por assinatura, com perfil mais comercial e internacionalizado, bastante distinto da proposta original.
No entanto, o legado da MTV Brasil segue presente em diversas áreas:
Na linguagem visual e narrativa adotada por criadores de conteúdo digital;
No formato de programas de entrevistas e debates informais, hoje comum em podcasts e lives;
No humor de crítica social, presente em produções como Choque de Cultura e Porta dos Fundos;
E na própria maneira como a música é consumida e comentada nas redes — com curadoria, opinião e estética que remetem ao modelo criado pela MTV.
Além disso, muitos dos profissionais revelados pela emissora continuam ativos em diferentes áreas da comunicação, televisão, música e internet, levando adiante a ousadia editorial e estética que marcou a MTV.
A televisão e a formação cultural brasileira
A televisão brasileira tem, historicamente, papel central na formação cultural e simbólica da população. Em um país de dimensões continentais e desigualdade de acesso à educação e cultura, a TV sempre exerceu função de mediação entre o público e o mundo. Dentro desse cenário, a MTV representou um momento raro em que essa mediação foi feita com foco na juventude, com respeito à sua linguagem, seus interesses e suas transformações.
Mais do que entreter, a MTV educou musicalmente, politizou esteticamente e deu voz a sujeitos até então invisibilizados na mídia. Seu impacto se deu tanto na formação de gosto quanto na ampliação de repertório e na legitimação de expressões culturais alternativas.
Hoje, embora a televisão tenha perdido espaço para as mídias digitais, a experiência da MTV Brasil segue como referência de como é possível comunicar com autenticidade, criatividade e respeito ao público.
A MTV Brasil foi uma das experiências mais inovadoras e culturalmente relevantes da história da televisão brasileira. Como a primeira emissora musical de canal aberto no país, ela não apenas transformou a forma de consumir música, mas também ampliou os horizontes de uma geração inteira. Sua linguagem irreverente, estética experimental e compromisso com o debate social continuam a influenciar a produção audiovisual atual, provando que sua relevância vai muito além do seu tempo de existência.
Mais do que uma emissora, a MTV foi uma escola informal de cultura para quem cresceu nos anos 1990 e 2000. E, nesse sentido, é possível ampliar o olhar e reconhecer o papel que a televisão, de modo geral, exerceu, e ainda exerce, na formação cultural brasileira. Em um país marcado por desigualdades históricas, onde o acesso à educação, à arte e à informação sempre foi limitado para grande parte da população, a TV se consolidou como uma das principais janelas para o mundo.
Mesmo com todas as críticas possíveis, e necessárias, à concentração de poder midiático, a televisão foi, por décadas, o espaço em que se moldaram referências estéticas, linguísticas, musicais e comportamentais. Ela formou plateias, apresentou novas culturas, estimulou debates e, em alguns momentos, rompeu com a lógica conservadora para propor olhares mais plurais.
Hoje, com o crescimento das plataformas digitais, o papel central da televisão pode ter se diluído, mas seu legado permanece. Os formatos, as linguagens e até os hábitos de consumo cultural que vemos na internet têm raízes profundas na estrutura televisiva. E, dentro desse ecossistema, experiências como a da MTV Brasil continuam a inspirar formas mais livres, diversas e criativas de se comunicar com o público.




Comentários